Maricá amplia aprendizado além da sala de aula com Centros de Integração Escola e Comunidade

Notícias de Maricá

Proposta inédita na rede municipal aproxima estudantes, educadores e moradores por meio de experiências práticas, autonomia e participação no território

Um inseto encontrado na horta pode despertar uma investigação. O lixo acumulado em uma rua pode abrir espaço para uma conversa sobre meio ambiente. Já uma dúvida sobre o universo pode se transformar em uma atividade de leitura, escrita e pesquisa. Em Maricá, situações simples do cotidiano passaram a ganhar novos significados dentro dos Centros de Integração Escola e Comunidade (CIECs).

A iniciativa da Prefeitura de Maricá propõe uma forma diferente de vivenciar a educação, colocando a curiosidade das crianças e as experiências do território no centro do processo de aprendizagem. Mais do que transmitir conteúdos, os espaços buscam estimular a autonomia, a convivência, o acolhimento e a participação dos estudantes.

Aprender a partir das experiências do dia a dia

Nos CIECs, o conteúdo curricular continua presente, mas é trabalhado de maneira conectada às situações vividas pelas próprias crianças. Brincadeiras, jogos, atividades artísticas, leitura, matemática, idiomas, filosofia e educação ambiental fazem parte da rotina.

Além disso, as propostas incluem experiências ao ar livre e dinâmicas que incentivam os estudantes a observar, questionar e buscar respostas. Assim, uma situação aparentemente comum pode se transformar em ponto de partida para novas descobertas.

Inicialmente implantado em duas unidades — uma no Bairro da Amizade, na região central, e outra no Barroco, em Itaipuaçu — o modelo funciona de forma integrada às escolas municipais.

Os estudantes permanecem um turno em suas unidades escolares de origem e participam, no outro período, das atividades desenvolvidas pelos Centros de Integração Escola e Comunidade. Dessa forma, a proposta amplia o tempo e os espaços destinados à formação das crianças.

A iniciativa está alinhada à Política Municipal de Educação Integral em Tempo Integral, prevista na Resolução nº 004/2025, e parte da ideia de que a aprendizagem também acontece fora dos limites tradicionais da sala de aula.

“O CIEC nasce como um espaço educativo que amplia as oportunidades de aprendizagem e convivência para nossas crianças. Elas podem desenvolver suas habilidades, talentos e competências em um ambiente seguro, acolhedor e cheio de estímulos. Ao mesmo tempo, as famílias podem ter a tranquilidade de saber que seus filhos estão bem cuidados, enquanto seguem em suas rotinas de trabalho”, afirmou o secretário de Educação, professor Rodrigo Moura.

Crianças participam da construção das atividades

Um dos diferenciais da proposta desenvolvida em Maricá é a relação construída entre os estudantes e os educadores.

Em vez de apenas receberem atividades e conteúdos previamente definidos, as crianças são incentivadas a fazer perguntas, pesquisar assuntos de interesse e participar das decisões relacionadas à rotina dos espaços.

A intenção é fazer com que os estudantes assumam um papel mais ativo no processo de aprendizagem e percebam que suas ideias também podem contribuir para a construção coletiva.

“O grande diferencial é fazer com as crianças, e não apenas para elas. Elas participam das decisões, assumem responsabilidades e aprendem a questionar e a interagir com o ambiente e com aquilo que realizam”, explicou Michelle Gonçalves, gerente das Comunidades de Aprendizagem.

No CIEC Tia Isa, por exemplo, cerca de 65 estudantes matriculados na Escola Municipal Marcos Vinícius Caetano Santana participam das atividades nos períodos da manhã e da tarde. As crianças têm entre 9 e 12 anos.

Para a psicopedagoga Valéria Belém, que atua na unidade, o convívio diário permite acompanhar aspectos do desenvolvimento infantil que nem sempre aparecem apenas em uma atividade convencional.

“É um local de vivências e de trocas entre as crianças, os profissionais e a comunidade. Durante as oficinas, a equipe acompanha a escrita, a coordenação motora, a lateralidade, a capacidade de comunicação, a convivência e a maneira como cada criança reage aos desafios. Elas aprendem conosco, e nós também aprendemos com elas”, destacou.

Comunidade também faz parte do processo educativo

A relação com o bairro é outro elemento importante da proposta. Por meio dos chamados Grupos de Responsabilidade (GRs), estudantes e profissionais observam o espaço ao redor, identificam necessidades e participam de ações coletivas.

O cuidado com a horta e com áreas comuns é um exemplo. Regar uma planta, pesquisar uma espécie ou tentar descobrir qual é um inseto encontrado no local pode abrir caminho para atividades de pesquisa, leitura e troca de conhecimentos.

Ao mesmo tempo, situações observadas fora do CIEC também são levadas para as conversas realizadas com os grupos.

Quando os estudantes percebem, por exemplo, problemas relacionados ao descarte de lixo ou a questões ambientais em suas comunidades, essas experiências podem se transformar em temas de discussão e aprendizagem.

“Quando eles identificam lixo na rua ou alguma situação ambiental, relacionam aquilo ao que trabalhamos no CIEC. O conhecimento não fica restrito ao centro. A ideia é que aprendam, compartilhem com as famílias e levem essas práticas para a comunidade”, reforçou Valéria.

Um novo olhar sobre a educação integral em Maricá

A curiosidade dos estudantes se torna, portanto, uma das principais portas de entrada para o desenvolvimento das atividades. A partir das perguntas feitas pelas crianças, os profissionais trabalham a pesquisa, a leitura e diferentes conteúdos previstos no currículo.

Estruturado a partir do Programa Comunidade Aberta, o modelo busca consolidar uma nova experiência de educação integral em Maricá, aproximando o acompanhamento pedagógico das vivências pessoais e da realidade de cada comunidade.

A proposta também transforma a experiência dos próprios profissionais que participam do projeto. Para Michelle Gonçalves, inovar exige disposição para aprender continuamente e reconhecer que a transformação acontece em diferentes sentidos.

“É mais do que um espaço para a criança aprender; é um lugar em que todos se modificam. Eu era uma profissional antes de iniciar esse processo e hoje sou outra. Inovar é sempre complexo, mas esse movimento é muito gratificante”, concluiu.

Com os Centros de Integração Escola e Comunidade, Maricá aposta em uma educação que ultrapassa os muros da escola e encontra no cotidiano, na convivência e no território novas possibilidades para ensinar e aprender.

Fotos: Elsson Campos

Leave a Reply