A Igreja de São José de Imbassaí 351 anos de história em Maricá

Por Vitor Barbosa Forto do acervo Paulo Batista Machado A Igreja de São José, localizada no bairro de São José de Imbassaí, tem como marco histórico oficial o ano de 1675. No entanto, relatos transmitidos pela tradição oral dos moradores indicam que a devoção ao santo é ainda mais antiga, antecedendo a construção formal do templo. De acordo com a professora e historiadora Maria Penha, em 1584 o local recebeu a visita de José de Anchieta, reconhecido por ela como o fundador da cidade de Maricá. Além de episódios atribuídos ao religioso, como a pesca milagrosa na Lagoa de Maricá, em Araçatiba, e a celebração da primeira missa no município, Anchieta também é apontado como responsável pelo início da devoção a São José na região. Segundo a tradição oral relatada pela historiadora, durante uma peregrinação, José de Anchieta aproximou-se de uma pequena elevação onde estava sendo construído um oratório. No local, indígenas esculpiam em madeira de andiroba uma imagem de São José. Impressionado com a delicadeza da obra e com a habilidade artesanal demonstrada, Anchieta teria sugerido que São José, conhecido como carpinteiro, fosse o patrono da ermida. Após abençoar a imagem, o religioso recomendou que os indígenas colhessem lírios do brejo às margens do rio para adorná-la, reforçando o simbolismo ligado à pureza e à iconografia católica associada ao santo. A origem do nome da localidade também apresenta diferentes interpretações. Conforme explica a professora Maria Penha, o termo “Bassain” estaria relacionado ao lírio, símbolo tradicional de pureza e atributo iconográfico de São José. Já “Imbassaí”, que significa “curso do rio”, pode estar ligado ao caminho percorrido por caminhantes em busca de abrigo, além de outros significados que ainda podem ser aprofundados por estudos etimológicos. O tema, entretanto, suscita debates entre pesquisadores. Há registros de que o primeiro título da igreja tenha sido dedicado a Nossa Senhora do Amparo. Após um intenso surto de malária, a população local teria sido forçada a se deslocar para a outra margem, onde hoje se encontra o atual centro da cidade de Maricá. O monsenhor Pizarro relata que a igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Imbassaí, possuía uma imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços, iconografia distinta da atualmente presente na Paróquia de Nossa Senhora do Amparo, situada no centro da cidade. Acredita-se que, diante das perdas enfrentadas pela comunidade de Imbassaí, tenha havido a necessidade de uma mudança iconográfica, afastando referências associadas ao período de fuga. Apesar das incertezas quanto à sua origem, a Igreja de São José passou por diversas intervenções ao longo dos anos. Durante uma manobra da Marinha na costa, o templo foi atingido por uma bala de canhão, o que levou ao seu abandono por um longo período. A recuperação do espaço só foi possível graças à iniciativa e generosidade de Jacintho Caetano, fundador da Viação Nossa Senhora do Amparo. Com a reforma, as celebrações de missas foram retomadas, contribuindo para o reavivamento da fé popular no bairro de Imbassaí. Bibliografia ARAUJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Memórias Históricas do Rio de Janeiro e das Províncias Anexas a Jurisdição do Vice-Rei do Estado do Brasil. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1820. SANTA MARIA, Agostinho de. Frei. Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora. Lisboa: Antonio Pedrozo Galram, 1707–1723. v. 8. Prefeitura de Maricá. São José de Imbassaí comemora 337 anos. Disponível em: https://www.marica.rj.gov.br/noticia/sao-jose-de-imbassai-comemora-337-anos/ Fotos: Thamyris Mello e Elsson Ccampos

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Escravidão e Famílias Escravizadas em Maricá: um estudo de caso

Foto: Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles) Vale do Paraíba 1885 site BBC news Mulher de turbante, 1870. (imagem ilustrativa)Alberto Henschel – Brasiliana Fotográfica No artigo deste mês da Revista Aconteceu Maricá, o historiador Paulo César Pereira de Oliveira, membro do IGHAM, aborda um aspecto importantíssimo da escravidão do município de Maricá: a formação e a trajetória das famílias negras – tema, durante muito tempo, negligenciado pela historiografia nacional e internacional. O recorte temporal do estudo compreende o período de 1835 a 1850, momento em que Maricá vivenciou profundas transformações, marcadas por um expressivo crescimento econômico e aumento demográfico.A presença africana e crioula escravizada foi determinante desde os primórdios da colonização da região, intensificando-se ao longo do século XIX. Somente entre 1835 e 1850, a população negra cativa representava entre 47% e 50,5% de todos os habitantes de Maricá, alcançando, em 1850, seu ponto mais alto: 8.819 pessoas escravizadas. Esses números evidenciam a força do trabalho compulsório na estrutura produtiva local e a centralidade das experiências negras na construção da sociedade maricaense.O estudo deste artigo destaca a família da africana Rosa, escravizada pelo major e fazendeiro João José Pacheco. Veja o organograma da família. Como mostra o organograma acima, Rosa era mãe de seis filhos — Cândido, Ignacia, Maria, Antônio, Pedro e Francisca — todos batizados entre 1836 e 1843. A partir dos registros paroquiais, foi possível reconstruir não apenas essa estrutura familiar, mas também as relações de compadrio formalizadas durante o período.O organograma detalha a escolha cuidadosa de padrinhos e madrinhas: homens livres, alguns com posição social destacada, aliados à devoção às santas protetoras Nossa Senhora e Nossa Senhora do Amparo. Longe de um gesto aleatório, essa rede de alianças foi estrategicamente construída por Rosa para garantir proteção, apoio e, em certos casos, possibilidades futuras de alforria para seus filhos, projeto que concretizou nos batizados de seus seis filhos.No cativeiro, as mulheres — como Rosa — desempenharam papel central na manutenção da vida familiar e comunitária. Muitas reuniam pecúlio, negociavam com seus senhores e articulavam redes de solidariedade e proteção. Em inúmeros casos, eram elas que convenciam padrinhos, compadres e figuras influentes a interceder pelas crianças ou a contribuir em processos de libertação. A história de Rosa e de seus filhos é exemplo vivo dessa capacidade de organização, resistência e agência negra no interior de Maricá oitocentista. SOBRE O AUTOR:Paulo César Pereira de Oliveira é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense, membro do IHGAM, com pesquisa sobre Escravidão e Famílias Negras, com foco no Município de Maricá.FONTESLivro de Batismo Misto (livres, libertos e cativos) da Freguesia de Nossa Senhora do Amparo de Maricá, 1835-1849.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASFREIRE, Jonis. Escravidão e Família Escrava na Zona da Mata Mineira Oitocentista. Tese (Doutorado em História), Unicamp, Campinas, São Paulo, 2009.FREITAS, Dermeval Marins de. Famílias Escravas na Freguesia de Santo Antônio de Sá/RJ, (1750-1808). Dissertação (Mestrado em História), UFF, Niterói, 2018.SLENES, Robert W. Na Senzala uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX. São Paulo, editora Unicamp. 1999. Fotos: Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles) Vale do Paraíba 1885 site BBC news Fotos: Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles) Vale do Paraíba 1885 site BBC news

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LUIZ MANOEL FERREIRA O ÚNICO MARICAENSE QUE “TOMBOU” NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Por: Miguel Ângelo Padilha Marques – Pesquisador de História e Presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Ambiental de Maricá Mirim (IHGAM Mirim). Monumento aos Mortos da Segunda Guerra por Fernando Dall’Acqua A Segunda Guerra Mundial teve início no dia 1º de setembro de 1939, com a invasão alemã à Polônia, que pedia a devolução da zona denominada “Corredor Polonês”, conquistada durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No dia 15 de janeiro de 1942, o Brasil rompeu suas relações com as potências de eixo (Alemanha e Itália). E no dia 22 de agosto do referido ano, após o afundamento de navios mercantes brasileiros, o Brasil declarou guerra contra a Alemanha nazista e a Itália fascista. Neste mesmo ano, o Brasil enviou muitos militares, efetivos e reservistas, além de mulheres que passaram a trabalhar nos hospitais de campanha e nas escolas. No dia 13 de novembro de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Cerca de 25.334 homens e mulheres foram enviados para a guerra. O primeiro escalão embarcou na noite de 30 de junho de 1944, o segundo e o terceiro escalões embarcaram no dia 22 de setembro, o quarto escalão embarcou no dia 23 de novembro e o quinto escalão, no dia 8 de fevereiro de 1945.De Maricá foram convocados para a Segunda Guerra Mundial 13 “pracinhas”, todos eles incorporados à FEB. Dentre os treze, destacamos, neste artigo, o Expedicionário Luiz Manoel Ferreira, o único maricaense que não voltou vivo pra casa, pois faleceu numa das batalhas da Segunda Guerra Mundial.Luiz Manoel Ferreira nasceu na localidade de Pedregulho, bairro do Espraiado, no dia 9 de setembro de 1920. Era filho de Antônio Ferreira e Leonor Rosa de Jesus, ambos humildes lavradores. Já na adolescência, se mudou para o bairro do Flamengo, mais próximo do Centro de Maricá. Estudou somente o ensino primário, não prosseguindo seus estudos pela necessidade de ajudar aos seus pais na lavoura, visto que a falta de dinheiro era grande.Figura 1 – Expedicionário Luis Manoel Ferreira – Acervo Museu Histórico de Maricá.Figura 2 – Monumento aos Mortos da Segunda Guerra por Fernando Dall’AcquaAos 18 anos de idade, alistou-se no Exército Brasileiro, temendo ser nomeado para o corpo de cavalaria. No ano de 1944, recebeu a notícia de sua convocação para a Segunda Guerra Mundial, e recebeu nove dias de folga para ficar com a sua família. Incorporado ao 1º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro, embarcou no 2º escalão, em 22 de setembro, a bordo do navio General Meyghs. No dia 12 de dezembro de 1944, durante o segundo ataque ao Monte Castelo, na Itália, o Expedicionário Luiz Manoel Ferreira foi atingido por estilhaços de uma granada, o que tirou a vida do heroico filho maricaense, que com bravura e seriedade representou o município de Maricá e o Brasil nesta batalha.Luiz Manoel Ferreira foi sepultado no dia 14 de dezembro de 1944, no Cemitério Militar de Pistóia, na Itália. Em 1959, com a criação da Comissão de Repatriamento dos Mortos do Cemitério de Pistóia, por ordem do Exmo. Sr. Presidente da República Dr.Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961), o Tenente-Coronel Valliki Erishen enviou uma carta à família de Manoel Ferreira, manifestando o desejo de trasladar seus restos mortais para o Rio de Janeiro. Autorizado pela família, o corpo do militar foi trazido para o Brasil e sepultado no Monumento aos Heróis da Segunda Guerra, localizado no Aterro do Flamengo.Por conta dos seus méritos e serviços prestados ao Brasil na Segunda Guerra Mundial, recebeu as medalhas da Campanha “Sangue do Brasil’ e “Cruz do Combate“ de 2ª Classe. Em 1971, por meio da deliberação nº 416 de 28 de junho de 1971, o Prefeito de Maricá, Wilson dos Santos Mendes, deu a um dos logradouros centrais da cidade o nome “Expedicionário Luiz Manoel Ferreira”, a partir da indicação legislativa do Vereador Nilton Renato Marins de Oliveira. Já no século XXI, em 2011, foi inaugurado um busto do expedicionário, na Praça Mirene Bittencourt, no bairro Boa Vista. Tal obra foi feita com recursos financeiros do sobrinho de Luiz Manoel.Fontes bibliográficas:LAMBRAKI, Alexandra. Personalidades Ilustres. In: LAMBRAKI, Alexandra. Compêndios da História de Maricá. Rio de Janeiro: Cop Editora e Gráfica Ltda, 2005.Revista Maricá já, nº 21 // ano 11, 2012.https://museuvirtualdafeb.eb.mil.br/linha-do-tempo/. Acesso em: 13 out. 2025

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15 DE AGOSTO: DIA DE NOSSA SENHORA DO AMPARO – PADROEIRA DE MARICÁ

Foto: Clarildo Menezes Neste artigo do Instituto Histórico, Geográfico e Ambiental de Maricá (IHGAM) para acoluna “História de Maricá” do Portal “Aconteceu Maricá”, falaremos a respeito de mais umaefeméride do nosso município: o dia 15 de agosto, data em que comemoramos o dia de nossaPadroeira, Nossa Senhora do Amparo. Paróquia Nossa Senhora do Amparo (criada em 12 de janeiro de 1755), que até entãofuncionava na atual Igreja São José do Imbassaí. O principal motivo para o início dasconstruções da nova igreja foram as febres palustres que estavam assolando o povoado,causando a morte dos moradores daquela região. Pensando nisso, o Padre Vicente Ferreirade Noronha (3º Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Amparo), decidiu transferir a sede daparóquia e o núcleo do povoado maricaense para outra margem da Lagoa de Maricá, no localque conhecemos hoje como Centro de Maricá. Quatorze anos depois, no dia 15 de agosto de1802, foi celebrada a primeira missa na nova Igreja Matriz, e transladada para ela a imagemde Nossa Senhora do Amparo, que estava na antiga sede da Freguesia.Em pesquisas nos antigos jornais, podemos ver que a festa de Nossa Senhora doAmparo já era comemorada na segunda metade do século XIX, e já nesta época, asfestividades da Padroeira tinham uma concorrência muito grande. Na festa de 1882, porexemplo, marcaram presença seiscentos fiéis.Em 1887, foi criada a Companhia Estrada de Ferro Maricá (CEFM), uma empresaprivada criada por nobres maricaenses e responsável pela construção da Estrada de FerroMaricá (EFM). Com a criação da linha ferroviária, ficou muito mais fácil vir até a festa deNossa Senhora do Amparo. Em dias de novena e da festa, os trens vinham abarrotados depessoas que moravam em Inoã, São José do Imbassaí, Manoel Ribeiro, Ponta Negra etc. Ede turistas que residiam na Cidade do Rio de Janeiro, em Itaboraí, Rio Bonito, Araruama eSaquarema. Nos tempos da festa da Padroeira de Maricá, o número de trens era ampliado,e a cada trem que chegava na Estação de Maricá, eram deixados centenas de passageirose “festeiros” de Nossa Senhora do Amparo.As comemorações tinham início às 05h do dia 15 de agosto, com a alvorada. Emmeados do século XX, essa alvorada contava com a participação da Banda Furiosa do Caju,que seguia até a casa do empresário Jacintho Luiz Caetano (fundador da Viação NossaSenhora do Amparo), onde era oferecido um café da manhã. Várias missas eram celebradasao longo do dia, sendo a missa solene celebrada às 11h, com sermão solene e Te deum.Inúmeros carros ficavam parados em frente à Igreja Matriz, principalmente no horário dasolenidade, às 11h.Além das celebrações, a Banda Furiosa do Caju também se apresentava em um coretoimprovisado, que ficava em frente à Igreja. Além da apresentação das bandas, ocorria ofamoso “leilão de prendas”, sendo leiloados bois, galinhas, cabras, joias, pedaços de tecidosnobres etc. A procissão era feita às 20h e passava pela Avenida Nossa Senhora do Amparo,percorria a Rua Domício da Gama, subindo a Ladeira dos Correios e chegando até a RuaRibeiro de Almeida, virava na Rua Abreu Sodré e, por meio da Rua Abreu Rangel, chegavade volta à Matriz. As festas terminavam à meia noite, com uma bonita queima de fogos.Na década de 1940, durante a administração paroquial do Cônego Joaquim Antônio deCarvalho Batalha (1894-1969), foi criado o hino da Padroeira de Maricá, Nossa Senhora doAmparo. Esse bonito hino é entoado até hoje no novenário em preparação à festa e nasmissas em honra à Santa, no dia 15 de agosto. Foto: Renata Gama Conheça o hino:“Mãe de Deus, Virgem do Amparo, Padroeira de Maricá.Volve este olhar Santo e claro aos teus filhos que estão cá.És nossa luz, nossa vida, nossa fé junto de Deus.Abençoa nossa lida nestes lares que são seus.Coro – Senhora do Amparo escuta a prece do coração.Que sobe da nossa luta nas vozes dessa oração.Eis o nosso lenitivo neste mundo enganador,Junto a Jesus Redivivo, seu Filho, Nosso Senhor!Os que cometem pecados no Brasil, de Norte a Sul,Certos serão amparados ao beijar seu manto azul”.Atualmente, a festa de Nossa Senhora do Amparo é considerada Patrimônio CulturalImaterial do município de Maricá, e é uma importante demonstração de fé do povomaricaense. Texto: Miguel Ângelo Padilha Marques – Pesquisador de História, com ênfase na História deMaricá e na História do Brasil, e Presidente do IHGAM Mirim.Revisão: Renata Aymoré Gama – Arquiteta Urbanista, pesquisadora de Patrimônio Culturale Presidente do IHGAM.Fontes bibliográficas:BRUM, Nilton Cezar Marins. “Contando a História de Maricá” / Cezar Brum. Rio de Janeiro:Smart Printer, 2016.Jornal O Fluminense(1880-1889).Disponível em:< https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=100439_02&pasta=ano%20188& pesq=%22Maric%C3%A1%22 >. Acesso em: 25 de julho de 2025. CAETANO, Maria do Amparo. Jacintho Luiz Caetano: 100 anos de História. Rio de Janeiro:COP Editora, 2000.MACHADO, Paulo Batista. “Maricá, meu amor”. Rio de Janeiro: Apex Editora, 1977.Agradecimentos a: Eunice Coelho, Flavia Souza e Maria Penha de Andrade e Silva.

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Relatos de um africano que foi escravizado em Maricá – Dawson Nascimento Silva

Imagem ilustrativa de um africano de Nação CabindaJohann Moritz Rugendas Nesta edição da Coluna sobre a História de Maricá, o Paleografo, pesquisador e membro do IHGAM, Dawson Nascimento Silva, compartilha conosco a transcrição de um documento inédito que narra acontecimentos ocorridos na vida de um africano de Nação Cabinda, que foi escravizado em Maricá, no início do século XIX. Boa leitura!Renata Aymoré Gama – Presidente do IHGAMDepois de conquistar sua liberdade, arrendou uma área de terras onde constituiu um pequeno sítio localizado no bairro do Flamengo, distrito de Maricá, onde viveu seus últimos dias. No final de sua existência resolveu fazer seu testamento onde expôs a sua última vontade em um texto redigido pelo amanuense1 Manoel Pinto Ribeiro Espíndola.“Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem… a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Karl Marx“Augusto Pinto Ferreira, Serventuário Vitalício de primeiro ofício de Tabelião Público do Judicial, Notas, Escrivão da Provedoria nesta Vila de Maricá, por Mercês de Sua Majestade Imperial, que Deus Guarde!!!Certifico que revendo em meu cartório os testamentos assinados em meu cartório, entre eles, encontrei o do ter seguinte;Em nome de Deus Amém!!!Eu, Antônio Ferreira Pinto, estando adoentado, mas em meu perfeito juízo, são e claro entendimento, tenho determinado fazer meu testamento, pelo modo seguinte:

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Alforrias na Pia Batismal da Paróquia de Maricá, no século XIX.Paulo César Pereira de OliveiraNo

No dia 13 de maio de 2025, a abolição da escravidão no Brasil completará 137anos. Em comemoração a esse marco histórico e simbólico de nosso país, o IHGAM e oIHGAM-Mirim publicam, nesta edição do Aconteceu Maricá, um artigo sobre asAlforrias Batismais – uma prática pouco conhecida da história local, pela qual criançasnascidas de mulheres escravizadas recebiam a liberdade durante o batismo.O estudo tem como base o Livro de Batismos Mistos da Igreja Matriz de NossaSenhora do Amparo, referente ao período de 1835 a 1849. Ao todo, o volume documentacerca de 2.590 batismos, dos quais apenas 60 correspondem a crianças nascidas emcondição de cativeiro. Desses, 58 incluem a concessão de alforria no próprio ritoreligioso. Todos os registros dos recém-libertos foram assinados pelo vigário JoséFaustino Gomes de Santana, pároco responsável pela igreja local na época.Esses casos revelam que o batismo, além de seu valor religioso e social, tambémpodia funcionar como um instrumento jurídico de libertação. As alforrias batismaisintegravam um conjunto de estratégias utilizadas por senhores e escravos para legitimara liberdade, assim com as cartas de alforria, testamentos e outros documentos, refletindoos diferentes interesses em jogo. Como os assentos de batismo tinham um valor equivalente ao de uma escriturapública, as alforrias neles registradas não precisavam ser reconhecidas em cartório. Essesmesmos registros podiam servir como prova da posse do escravo por parte do senhor,bem como formalizar doções e transferências de propriedade, sem a necessidade dedocumentação notarial. O exemplo a seguir, extraído do livro de batismo local, podeajudar a ilustrar esse uso. Dinâmicas das alforrias Batismais em MaricáComo mencionado, entre 1835 e 1849, foram celebradas 58 alforrias na paróquiade Maricá. Esse número está em conformidade com o padrão observado em outraslocalidades fluminenses, como São Gonçalo e Macaé. Quanto ao perfil dessas crianças,nota-se um equilíbrio entre os sexos: foram alforriadas 32 meninas e 26 meninos. Todosforam identificados como filhos naturais. Em cinco casos, a liberdade foi concedidamediante pagamento ao proprietário. Desses, dois foram pagos pelos próprios pais dobatizando, um pela mãe, uma pelo padrinho e outro por um ex-senhor. A tabela abaixo mostra os tipos de alforrias, conforme o gênero do batizado.Tipo de Alforria Menina Menino Total %Gratuitas 29 24 53 91%Pagas 3 2 5 9%Fonte: Livro de Batismo Misto (livres/libertos e escravos) da paróquia de Maricá (1835-1949) A ampla maioria das alforrias foi gratuita: 91% contra 9% pagas. Esse dado revelaque os motivos para as concessões iam muito além dos valores financeiros. Entre ossenhores e senhoras que alforriaram, 43 justificaram a concessão “por sua vontade”, dezmencionaram “os bons serviços prestados pela mãe do batizando” e cinco, por terem“recebido determinada quantia”.Os registros de batismo também permitem identificar o perfil das mães cativas:32 eram brasileiras e 26 africanas. Entre elas, Rosa, a escrava africana foi a mulher coma maior quantidade de filhos libertos na pia batismal, a saber: Candido, em 1836; Maria,em 1838; Pedro em 1840; Ignácia, em 1840; e Francisca, em 1843. Em todos os casos,ela escolheu padrinho livres – uma estratégia visando algum tipo de ganho, como proteçãoe possibilidades de intercessão junto ao senhor no processo de alforria.Escolher padrinhos bem situados na hierarquia local era fundamental nessecontexto. Em Maricá, no período estudado, todas as crianças forras tiveram padrinhoslivres. Nenhum senhor ou senhora foi escolhido para apadrinhar, mas em alguns casos,parentes seus exerceram esse papel. Em uma das situações, o padrinho foi responsáveldireto pela compra da alforria: Felipe José Miguel, em 17 de agosto de 1847, pagou aquantia de 45 mil réis a Geraldo Franco Siqueira pela liberdade de seu afilhado, Manoel.Das 58 crianças alforriadas analisadas, apenas duas tiveram o nome do pairegistrado na cerimônia de batismo. Isso indica que, em 56 casos, apenas a mãe foimencionada, em conformidade com as normas eclesiásticas da época, que restringiam oregistro do nome do pai aos filhos naturais. As duas exceções identificadas possivelmentese explicam pelo envolvimento direto dos pais na compra da liberdade dos filhos. LuizJosé Reis (livre) e Florinda (parda, escrava), pais de Henriqueta, pagaram 60 mil réis pelaalforria da filha, em 1844. Já João Antônio da Silva (livre) e Ricarda (parda, escrava),pais de Guilhermino, desembolsaram a quantia de 64 mil reis, em 1847.Com isso, podemos encerrar afirmando que a primeira chance de alforria paraaqueles nascidos no cativeiro se dava pelo batismo. No entanto, os estudos sobre essetema são poucos, merecendo maior atenção e aprofundamento. Autor: Paulo César Pereira de Oliveira – Graduado em História pela UFF, Professorde História (Araruama) e Membro do IHGAM.Referência Bibliográfica:FREIRE, Jonis. Escravidão e Família escrava na Zona da Mata Mineira Oitocentista.Campinas, 2009. f.359. Tese (Doutorado em História), Instituto de Filosofia e CiênciasHumanas, Universidade de Campinas, Campinas, 2009.OLIVEIRA, Paulo César P. Família, Compadrio e Alforrias na Pia Batismal. Vila de SantaMaria de Maricá (RJ), 1835-1849. Monografia (Graduação em História) – Instituto deHistória, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2017

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