“A fotografia é parte da minha identidade”: uma conversa com a fotojornalista Márcia Foletto

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Foto: Reprodução Internet

Por Anselmo Mourão – Portal ACONTECEU MARICÁ

Com quase quatro décadas dedicadas ao fotojornalismo, Márcia Foletto é uma das profissionais mais respeitadas do país. Gaúcha de Santa Maria, formada em Jornalismo, começou a trabalhar como fotógrafa aos 18 anos e passou por diversos jornais diários do sul do Brasil antes de chegar ao Rio de Janeiro. Desde 1991 integra a equipe do jornal O Globo, onde participou de coberturas históricas como a Eco-92, a chacina de Vigário Geral, os desastres de Mariana e Brumadinho, além de registrar o cotidiano do Rio com olhar sensível e crítico.

Ao longo de sua trajetória, acumulou reconhecimentos nacionais e internacionais, como o Prêmio Petrobras de Fotojornalismo (2017), pela série sobre Mariana, e o Prêmio Rey de España (2016), com uma foto da série Os Miseráveis, que retratou o avanço da pobreza no estado. Seu trabalho já foi exibido em coletivas no Museu do Catete, Museu do Amanhã, Centro Cultural da Justiça Federal e Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Também realizou exposições individuais marcantes, como Quando o Ofício Encontra a Arte (2006) e Sonata (2012).

Nesta entrevista exclusiva ao Portal ACONTECEU MARICÁ, concedida ao fotojornalista Anselmo Mourão, ela revisita suas origens, fala sobre os desafios da profissão e reflete sobre o papel da fotografia na sociedade contemporânea.


Infância entre tábuas, câmeras e curiosidade

Anselmo Mourão: Márcia, para começarmos, conte um pouco onde nasceu e como foi sua infância.
Márcia Foletto: Nasci em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, numa família italiana com nove irmãos. Minha infância foi muito livre. Brincava entre tábuas e tocos de madeira na fábrica de esquadrias do meu pai. Era bem moleca — andava de perna de pau, jogava futebol com os amigos… aquela bagunça boa de criança.


O primeiro clique e a certeza de um caminho

Anselmo: Como surgiu seu interesse pela fotografia?
Márcia: Uma das minhas irmãs mais velhas é artista plástica e tinha uma câmera Pratika. Quando entrei na faculdade de Comunicação Social, ela me emprestou a câmera. Foi amor instantâneo. Na turma de jornalismo eu já era “a fotógrafa”. No último ano da faculdade, já trabalhava como fotojornalista. São quase 40 anos nessa profissão.


A estreia na profissão

Anselmo: Você lembra da sua primeira experiência profissional?
Márcia: Comecei no jornal A Razão, em Santa Maria. Éramos apenas dois fotógrafos, então eu fazia de tudo — coluna social, futebol — e ainda revelava e ampliava as fotos. Foi uma grande escola. Depois trabalhei em O Pioneiro, em Caxias do Sul, e no Diário Catarinense, em Florianópolis. Lá, com chromos e negativos coloridos, aprendi a ler a exposição quase de memória.


A porta que se abriu para o jornal O Globo

Anselmo: Como surgiu a oportunidade de trabalhar no O Globo?
Márcia: Depois de dois anos em Florianópolis, queria dar mais um passo. Meu sonho era ser fotógrafa de guerra. Montei um portfólio e fui ao Rio visitar os jornais da época. Gostaram do meu trabalho, mas só o Globo me pediu um teste. O editor Sérgio Zalles solicitou um ensaio no Arpoador — nunca esqueço disso. Depois fui chamada para os Jornais de Bairro e, logo depois, para a equipe principal. Estou lá desde 1991.


Coberturas que marcaram uma carreira

Anselmo: Quais trabalhos mais te marcaram?
Márcia: Muitos. Ainda jovem, fotografei as chacinas de Vigário Geral e da Candelária. Cobri eleições presidenciais por mais de 30 anos. Estive em Mariana e Brumadinho. Mas a violência urbana no Rio e suas vítimas é o que mais marca meu trabalho.


Um projeto especial: “Mutilados”

Anselmo: Existe uma série de imagens especial para você?
Márcia: O projeto Mutilados, de 2023. Tive tempo para acompanhar personagens, algo raro no jornalismo diário. O trabalho teve grande repercussão: recebi meu primeiro Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e fui finalista do Prêmio Gabriel García Márquez.


Criar é observar — antes de fotografar

Anselmo: Como funciona seu processo criativo?
Márcia: Meu primeiro editor no O Globo, Aníbal Philot, dizia que o fotógrafo deve “sobrevoar a cena como um pássaro”. Antes de clicar, observo: luzes, cores, personagens. Só então pego a câmera. E, acima de tudo, escuto as pessoas. Fotografia exige construção de confiança.


Do filme ao digital: uma testemunha das transformações

Anselmo: Como você enxerga a fotografia digital?
Márcia: Passei por tudo: preto e branco, cromos, negativo e digital. Hoje é melhor — mais possibilidades e menos custo. Mas o excesso de imagens é um problema sério. Por isso, penso como no tempo dos filmes de 36 poses: fotografar só quando necessário.


O que diferencia uma grande foto jornalística?

Anselmo: O que faz uma foto se destacar no meio de tantas imagens?
Márcia: Hoje todos têm um celular e fotografam o tempo todo. Mas o profissional precisa ir além: construir uma imagem com camadas, que sensibilize, gere empatia e provoque reflexão.


Desafios atuais nas redações e nas ruas

Anselmo: Quais os principais desafios da profissão hoje?
Márcia: Falta investimento no jornalismo. Redações menores, pouco tempo, baixa remuneração para equipamentos. Nas ruas, disputamos espaço com centenas de celulares. Perdemos um pouco a relevância de testemunhas únicas.


Sonhos por realizar

Anselmo: Há alguma cobertura que você ainda sonha em fazer?
Márcia: Meu sonho sempre foi ter mais tempo para me dedicar a um grande projeto — algo difícil no ritmo do jornalismo diário.


Projetos atuais: clima, futuro e… fuscas

Anselmo: Quais são os seus projetos no momento?
Márcia: Além do trabalho diário, desenvolvo projetos sobre mudanças climáticas, um tema urgente. E, no lazer, mantenho o Fusquei, meu perfil no Instagram onde registro fuscas pelo Brasil.


Fotografia como memória e transformação

Anselmo: Como você enxerga o papel da fotografia na sociedade?
Márcia: A fotografia congela instantes, prova a existência das coisas. Ela ajuda a entender o passado, ilumina o presente e pode transformar realidades, revelando injustiças e provocando reflexão.


Conselhos para novos fotojornalistas

Anselmo: Que mensagem deixaria para quem está começando?
Márcia: Leiam e ouçam. Literatura e história ampliam o olhar. E ouvir quem você fotografa cria conexão verdadeira — muito além do visor.


“Ainda tenho muito a aprender”

Anselmo: Para finalizar, o que a fotografia representa para você?
Márcia: A fotografia é parte da minha identidade. Lembro pouco de mim antes de operar uma câmera. Construí minha carreira com dedicação, mas ainda tenho muito a aprender.

Fotos: Arquivo Pessoal (Fotos que receberam prêmios Nacionais e Internacionais)

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