Escravidão e Famílias Escravizadas em Maricá: um estudo de caso

História de Maricá Notícias de Maricá

Foto: Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles) Vale do Paraíba 1885 site BBC news

Mulher de turbante, 1870. (imagem ilustrativa)
Alberto Henschel – Brasiliana Fotográfica


No artigo deste mês da Revista Aconteceu Maricá, o historiador Paulo César Pereira de Oliveira, membro do IGHAM, aborda um aspecto importantíssimo da escravidão do município de Maricá: a formação e a trajetória das famílias negras – tema, durante muito tempo, negligenciado pela historiografia nacional e internacional. O recorte temporal do estudo compreende o período de 1835 a 1850, momento em que Maricá vivenciou profundas transformações, marcadas por um expressivo crescimento econômico e aumento demográfico.
A presença africana e crioula escravizada foi determinante desde os primórdios da colonização da região, intensificando-se ao longo do século XIX. Somente entre 1835 e 1850, a população negra cativa representava entre 47% e 50,5% de todos os habitantes de Maricá, alcançando, em 1850, seu ponto mais alto: 8.819 pessoas escravizadas. Esses números evidenciam a força do trabalho compulsório na estrutura produtiva local e a centralidade das experiências negras na construção da sociedade maricaense.O estudo deste artigo destaca a família da africana Rosa, escravizada pelo major e fazendeiro João José Pacheco. Veja o organograma da família.

Como mostra o organograma acima, Rosa era mãe de seis filhos — Cândido, Ignacia, Maria, Antônio, Pedro e Francisca — todos batizados entre 1836 e 1843. A partir dos registros paroquiais, foi possível reconstruir não apenas essa estrutura familiar, mas também as relações de compadrio formalizadas durante o período.
O organograma detalha a escolha cuidadosa de padrinhos e madrinhas: homens livres, alguns com posição social destacada, aliados à devoção às santas protetoras Nossa Senhora e Nossa Senhora do Amparo. Longe de um gesto aleatório, essa rede de alianças foi estrategicamente construída por Rosa para garantir proteção, apoio e, em certos casos, possibilidades futuras de alforria para seus filhos, projeto que concretizou nos batizados de seus seis filhos.
No cativeiro, as mulheres — como Rosa — desempenharam papel central na manutenção da vida familiar e comunitária. Muitas reuniam pecúlio, negociavam com seus senhores e articulavam redes de solidariedade e proteção. Em inúmeros casos, eram elas que convenciam padrinhos, compadres e figuras influentes a interceder pelas crianças ou a contribuir em processos de libertação. A história de Rosa e de seus filhos é exemplo vivo dessa capacidade de organização, resistência e agência negra no interior de Maricá oitocentista.

SOBRE O AUTOR:
Paulo César Pereira de Oliveira é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense, membro do IHGAM, com pesquisa sobre Escravidão e Famílias Negras, com foco no Município de Maricá.
FONTES
Livro de Batismo Misto (livres, libertos e cativos) da Freguesia de Nossa Senhora do Amparo de Maricá, 1835-1849.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREIRE, Jonis. Escravidão e Família Escrava na Zona da Mata Mineira Oitocentista. Tese (Doutorado em História), Unicamp, Campinas, São Paulo, 2009.
FREITAS, Dermeval Marins de. Famílias Escravas na Freguesia de Santo Antônio de Sá/RJ, (1750-1808). Dissertação (Mestrado em História), UFF, Niterói, 2018.
SLENES, Robert W. Na Senzala uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX. São Paulo, editora Unicamp. 1999.

Fotos: Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles) Vale do Paraíba 1885 site BBC news

Fotos: Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles) Vale do Paraíba 1885 site BBC news

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